Papel do tempo na investigação e no jornalismo em debate

Professora Doutora Maria Luísa Humanes, da Universidad Rey Juan Carlos, e Professor Doutor João Figueira, da Universidade de Coimbra

O segundo dia da SOPCOM 2026 ficou marcado pela plenária realizada na manhã de terça-feira, dia 10, dedicada ao tema O tempo na investigação e na informação. A sessão contou com duas intervenções centrais: a primeira, conduzida pela Professora Doutora Maria Luísa Humanes, da Universidad Rey Juan Carlos, e a segunda pelo Professor Doutor João Figueira, da Universidade de Coimbra.

Na sua apresentação, Maria Luísa Humanes centrou-se na relevância do tempo enquanto variável fundamental na investigação científica, em particular nos estudos longitudinais. A investigadora destacou que nem todas as pesquisas que recorrem a dados recolhidos em diferentes momentos do tempo podem ser consideradas verdadeiramente longitudinais, sublinhando que este tipo de investigação implica a análise da mudança ao longo do tempo, que nem sempre é linear.

Segundo a docente, o papel do tempo depende diretamente da pergunta de investigação e do objeto em estudo, sendo essencial para análises de mudança, tanto quantitativas como qualitativas, a curto ou longo prazo. Os estudos longitudinais permitem, assim, descrever processos de transformação e analisar relações de causalidade, desde que duas condições fundamentais sejam asseguradas: tempo suficiente para a investigação e estabilidade do objeto de estudo ao longo do processo.

Como exemplo prático, Maria Luísa Humanes referiu investigações sobre as mudanças na profissão do jornalismo no século XXI, evidenciando a importância de analisar o mesmo objeto em diferentes momentos temporais para compreender as suas transformações. A investigadora abordou ainda as técnicas de investigação ao longo do tempo, bem como as vantagens e os desafios associados à análise longitudinal.

Na segunda parte da sessão, João Figueira trouxe a reflexão para o campo do jornalismo, com a intervenção intitulada O tempo e o modo: elogio da lentidão e da escuta ativa. O professor destacou o uso heterogéneo do tempo nas práticas profissionais e alertou para os efeitos da cultura da pressa no jornalismo contemporâneo.

Entre os principais problemas identificados, esteve a crise da atenção e a lógica da antecipação constante, que, segundo o investigador, coloca em risco o rigor e a qualidade da informação. Para João Figueira, a chamada “cronometralidade radical” contribui para um jornalismo apressado, que abdica da reflexão e da escuta, perdendo parte da sua beleza e do seu carácter crítico.

O docente defendeu um jornalismo que “não anda a correr”, assente na escuta ativa, na formulação das perguntas certas e num uso consciente do tempo. Num contexto marcado pela centralidade das redes sociais e pela modelação algorítmica do acesso à informação, João Figueira alertou para o risco de um jornalismo reduzido à lógica da captura, em detrimento do trabalho crítico e reflexivo.

A sessão encerrou com um apelo à valorização da qualidade em detrimento da quantidade, resumido na ideia de “publicar menos e ouvir mais”, reforçando a importância de uma boa preparação, nomeadamente no trabalho de entrevistas, como condição essencial para um jornalismo mais rigoroso e responsável.

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